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A coceira insistente em cães nem sempre é mania, calor ou "coisa de cachorro". Quando o animal passa a se lamber sem parar, acorda à noite para se coçar, sacode muito as orelhas, morde o próprio corpo ou interrompe o descanso e as brincadeiras por causa do incômodo, o gesto pode indicar que há algo errado com a saúde. Em muitos casos, o prurido, nome técnico da coceira, está ligado a alergias, infecções ou infestações parasitárias, ou seja, condições que precisam de diagnóstico e acompanhamento veterinário.
Mais do que um desconforto pontual, a coceira crônica é capaz de afetar o sono, o comportamento, a pele, a convivência em casa com as pessoas e outros animais e a qualidade de vida do cão. Também tende a virar um ciclo difícil de interromper: quanto mais o pet se coça, mais agride a pele; quanto mais a região sofre, maior o risco de lesões, contaminações secundárias e novas crises.
Por isso, especialistas alertam que o tutor não deve normalizar o incômodo persistente nem tentar resolver o problema apenas com soluções caseiras ou uso de medicamentos por conta própria.
Bruno Pietroluongo, professor de medicina veterinária da Universidade Anhembi Morumbi, especialista em dermatologia veterinária, explica que a coceira é algo comum a diversas enfermidades, algumas delas bacterianas; outras parasitárias. Até doenças fúngicas surgem como possível origem. "Agora, quando a gente fala de prurido crônico, a longo prazo ou persistente, as dermatites alérgicas são as mais comuns", afirma.
No grupo das coiceiras crônicas entram a alergia ligada à picada de parasita, como pulga e carrapato, as hipersensibilidades alimentares e a dermatite atópica canina, quadro frequente e geralmente associado à predisposição genética.
A médica veterinária dermatologista Larissa Botoni, da clínica Botoni Dermatologia Veterinária Avançada, reforça a mesma percepção. "Na nossa prática, a maioria dos cães que chega ao consultório com queixa de coceira persistente tem dermatite atópica", cita.
Como diferenciar?
A diferença entre um desconforto eventual e uma situação que exige investigação nem sempre é óbvia. Pietroluongo explica que existe uma escala de prurido que vai de 0 a 10. No zero, está o animal que nunca se coça ou se lambe e, no dez, o cão que se coça e se lambe o dia inteiro.
"Quando temos uma nota superior a 3 dentro dessa escala, consideramos que o prurido é patológico, ou seja, a coceira é proveniente de algum problema real", esclarece. Abaixo disso, são coceirinhas cotidianas como reação fisiológica normal de defesa do organismo.
Do mesmo modo, o tempo importa. Segundo o professor, pruridos que duram mais de um mês devem ser observados e levados ao veterinário para diagnóstico. Lambedura de patas pode ser sinal da manifestação clínica, enquanto orelhas que coçam demais ou pets que chacoalham as orelhas com frequência chegam a indicar otite.
Para Mayara Moriki, veterinária da Morikivet, algumas regiões do corpo ajudam a dar pistas. Segundo ela, orelhas, lambedura de patas e região do focinho igualmente auxiliam na identificação das suspeitas.
Mais sinais
A veterinária Joyce Lima, analista de educação corporativa da Cobasi, acrescenta que o alerta surge quando a irritação ocasional — um comportamento natural dos cães — se torna persistente ou frequente, especialmente acompanhada de queda de pelo (alopecia), vermelhidão e lesões na pele, além do comportamento de automutilação, como: morder-se, lamber excessivamente locais específicos ou arrancar pelos.
Mais do que uma doença em si, a coceira é uma manifestação clínica. Pietroluongo compara o prurido a um sintoma sentido por humanos e explica que, nas doenças alérgicas, a reação ao alérgeno desencadeia um processo inflamatório.
O animal se coça por causa da alergia; o movimento agride a pele; as lesões podem se contaminar por agentes bacterianos secundários; e o problema entra em espiral. "Gera-se aí o que a gente chama de ciclo do prurido, que se retroalimenta, piorando a condição", pontua.
É por isso que tratar apenas o ato de coçar-se costuma não ser suficiente. Botoni afirma que existem protocolos capazes de controlar o sintoma de forma geral, mas o manejo de longo prazo depende do diagnóstico correto do que está por trás da manifestação.
Em casos parasitários, como a sarna, é possível haver cura com a erradicação dos parasitas. Já nas alergias, a lógica muda: "O objetivo do tratamento é controle das crises, conforto e qualidade de vida ao paciente", diz.
Como a coceira crônica afeta o pet
A veterinária Joyce Lima observa que a melhora seguida de novas crises é relativamente comum em doenças crônicas (como a dermatite atópica), nas quais a pele fica mais sensível a fatores externos.
"Em doenças como essa, a barreira cutânea é comprometida e a pele se torna mais sensível a diversos fatores externos. Além disso, o contato frequente com alérgenos e irritantes —como produtos de limpeza, pólen, ácaros ou picada de insetos— pode desencadear novas crises, mesmo após uma melhora inicial", exemplifica.
No dia a dia, o impacto vai além das lesões visíveis. Botoni afirma que ela chega a provocar irritação, alteração da microbiota cutânea, disbiose e infecções recorrentes. Ainda é comum que alergopatias venham acompanhadas de otites recorrentes, com possíveis consequências graves, inclusive meningoencefalite e perda da audição (casos mais raros).
O desconforto constante interfere no sono, no humor e no comportamento do pet.
“Quando é persistente, a coceira impacta diretamente o bem-estar canino, alterando inclusive seu comportamento", diz Joyce Lima, médica veterinária.
Irritabilidade, inquietação, dificuldade para descansar e apatia estão entre as manifestações que aparecem quando o problema se prolonga. A convivência em casa é outra questão que pode ser afetada. Alguns cães passam a ficar mais isolados em decorrência do mau odor gerado por infecções secundárias ou do barulho provocado pelo ato frequente de se coçar. Outros parecem cansados, tensos ou menos dispostos enquanto o tratamento não começa a surtir efeito.
De acordo com Larissa Botoni, os retornos desses pacientes revelam a real dimensão desse tipo de alteração. "Quando conseguimos controlar, muitos voltam com o olhar calmo, doce, tranquilo e com uma expressão sorridente", afirma.
O caminho para melhorar a qualidade de vida começa por não normalizar o sofrimento. Para Mayara Moroki, um dos mitos é justamente "achar normal um pet ser alérgico". Ela aponta como erro dos tutores cuidar só dos sintomas sem buscar a origem.
O uso de pomadas, shampoos, antialérgicos ou corticoides sem orientação pode mascarar sintomas, atrasar o diagnóstico e até agravar o problema. Quando há antibióticos ou antifúngicos envolvidos, o uso inadequado inclusive favorece a criação de resistência.
Cuidados em casa
Alguns cuidados ajudam no conforto, embora não substituam o tratamento. Mayara Moroki recomenda evitar substâncias com muito cheiro, usar produtos apropriados para limpeza pet e dos itens cotidianos, que podem influenciar a condição do pet.
Joyce Lima ainda cita a importância de manter os banhos em dia, a hidratação cutânea, o controle de pulgas e a limpeza do ambiente em si, além de uma boa alimentação. Todos esses cuidados fazem diferença no controle da coceira, sobretudo decorrente de dermatite atópica.
Também é importante ter atenção com novos produtos usados no pet e na casa. Itens como xampus, perfumes, desinfetantes e roupinhas provocam ou pioram quadros, dependendo da sensibilidade individual de cada cachorro.
Para Lima, a orientação mais simples é também uma das mais importantes: não esperar a condição evoluir.
"Além disso, evitar a automedicação é essencial, pois o uso inadequado de alguns medicamentos e soluções pode mascarar os sintomas ou até agravar o quadro (principalmente no caso dos corticoides ou anti-histamínicos). Quanto mais cedo a causa for identificada, maiores são as chances de controle eficaz e melhora na qualidade de vida do animal", frisa.
Fonte: Uol
Imagem: Canva